27/07/2009

Oh Louie, Louie! Ainda com suas lamentações?

"Aos meus quase trinta e dois anos, eu, ao contrario de meus contemporâneos, não sei para onde estou indo, mas sei profundamente de onde estou vindo!
Sou o fruto da mais linda união neo sulista brasileira, ou seja, um paranaense da divisa de São Paulo com Paraná, meu pai Antonio, filho de uma paulista descendente de portugueses e italianos, avó “Licinha”e de um paulista filho de descendestes de italianos com austríacos, avô José, e, de uma pernambucana, minha mãe Salete, filha de uma descendente de índios com holandeses, a avó Luzia, e de um descendente de portugueses com negros, o avô Manoel. Dessa linda mistura maravilhosa que chamamos de brasileiros, surge eu, um Londrinense impar em minha concepção.
Não quero falar da rainha de ébano que foi roubada e estuprada pelo português que a comprou, nem da jovem holandesa que não resistiu aos carinhos do gentil, tão pouco falar do amor que surgiu em um navio vindo da Europa , entre um italiano e uma austríaca e muito menos contar dos dissabores das colônias italianas onde as festas regadas a vinho e a danças davam pano de fundo perfeito para a paixão entre a jovem portuguesinha e o italianinho tímido, não, eu não quero contar nada sobre isso.
Sei que para minha mãe chegar do nordeste para o sul não foi fácil, dessas historias que já ouvimos tantas vezes, da longa jornada de pau de arara ate são Paulo, da primeira vez que uma nordestinazinha avista tanta água que a faz acreditar que aquilo é o mar, e maravilhada, quase autista, ouve ao longe em um momento de lucidez alguém murmurar que aquilo tudo ali é o rio são Francisco, ou, mais intimamente falando, o velho Chico. Que para encarem essa jornada, a pobre mãe abandonada a sorte do sol e do sal do interiorzão de Pernambuco, minha vó Luzia, teve de vender todo o pouco que tinham, matar as três magras galinhas que estavam no quintal, cozinhá-las e para acondiciona-lãs, a fim de durarem a cruzada dos migrantes do êxodo nordestino da década de sessenta, mete-lãs na melhor porção possível da boa farinha de mandioca nordestina, e esse seria o cardápio dos dez próximos dias de viagem de Salgueiro a Londrina. Tudo isso para ir de encontro de meu avô, que já estava a algum tempo no eldorado do café, trabalhando como saqueiro e arrumando amantes aqui e ali, noticia esta que chegara mais rápido que a viagem de pau de arara ao Pernambuco. Enfim, não vou me delongar nessa introdução que mais fala da saga de tantos nordestinos em busca da promessa de oportunidades no sul do pais, não eu não vou. Nem tão pouco vou me atentar a dura vida de meu pai nas roças de café do interior do Paraná, com toda a sorte de infortúnios que a supersticiosa família dele se formou, também disso não vou falar.
Quero contar de mim, de meu tempo, de minha era."

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