Não sei bem explicar, só sei que me acomete uma solidão profunda e uma melancolia dolorosa e dramática, todas as histórias mais tristes passam em filmes na televisão e na minha mente cheia do "formol das lembranças", e fico assim, entre lágrimas e risos, arrepios e sobressaltos.
Mas nesse domingo em especial, percebi o vazio de se estar vivo e não estar amando. Simplesmente não amo nada nesse momento. Não amo ninguém. Não amo o meu trabalho. Não amo meus sonhos. Não amo minha família. Não amo minha casa. Não amo nada. E está consternação por si só já é um martírio, e esse é outro dilema, pois sou um pisciano nato, ou seja, nasci um mártir, e sem uma causa, acabo por perder o caminho e enlouquecer.
Sim os mais estudiosos do assunto dirão que depois dos trinta anos você já é mais seu ascendente que seu signo solar, e nesse caso, gêmeos é bem menos instável e mais egoísta, mas eu desmentirei, pois negarei essa idéia de trinta anos por mais uns cinco se eu conseguir.
Humores à parte, acho que supervalorizo demais o amor, mas não consigo abandonar essa passionalidade que é tão forte em minha personalidade. Passion de persona. Parece nome de perfume.
Passei por alguns amores, muitas paixões e centenas de camas, mas isso não me tornou um doutor em relacionamentos, pelo contrario, acho que cada vez fico mais confuso sobre o assunto, acho que é como em uma degustação de vinhos, se experimentar demais acaba bêbado.
Penso se alguém me amará novamente.
Hoje entre pensamento, arrepios e lágrimas, lembrei-me do dia da morte de minha avó, ela já estava doente e internada a alguns dias, estava na UTI, e precisávamos de um milagre, uma tia que morava em Blumenau estava hospedada em casa, esperava seu primeiro filho em avançado período da gestação, terminávamos o almoço com uma melancia de sobremesa, um silêncio à mesa. Acabou a luz só em nossa casa. Passou um anjo! Alguém disse meio que de brincadeira. Minha mãe se arrepiou e soltou um gemido e depois eu, logo em seguida minha irmã mais velha e a mais nova em uma sequência e por fim a minha tia, e enquanto minha mãe soltava uma expressão que sempre diz quando arrepia, "saí morte que eu tô forte!", minha tia começou a chorar de dor, dizendo que sua barriga tinha ficado dura como pedra. Entre um acode aqui e um toma água com açucar dali, a luz voltou. Hoje sei que era minha avó conhecendo e se despedindo de seu netinho, filho de sua filha mais nova, e que ela não conheceu nessa vida. Alguns minutos depois o telefone tocou, eu atendi, era minha tia avisando que a vó Maria tinha morrido. Já entre lágrimas e desespero chamei minha mãe para atender o telefone, voltei à mesa e não tive coragem de dizer nada, mas estava em meu rosto, minha tia começou a chorar e entre olhares todos já sabiam antes mesmo de ouvirem o choro de minha mãe.
Era ela se despedindo. Afirmou minha mãe sobre o episódio da luz e dos arrepios.
Acho que nunca me recuperei da morte de minha avó materna, ela era especial e cheia de segredos, uma mulher séria e de rosto endurecido pelo sofrimento que passou em sua vida, mas adorava jogar dominó e fazer palavras cruzadas, acho que treinava para ir no roda a roda de Silvio santos, mesmo nunca tendo comprado um carnê do baú.
Gostaria de poder contar tantas coisa para ela, quem sabe oque poderia me dizer aquela senhora tão pequena em estatura e tão forte em caráter? Isso eu nunca saberei.
Sei apenas que pareço um boneco mazoquista nas mãos do destino que eu tenho traçado, um autosabotador de meus sonhos e desejos. E isso nem ela e nem ninguém gostaria de saber.
Mas essa história terminou hoje.
Obrigado Vó.